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Anti-Racism Conversations

Racismo em português

Texto em Português (Check the English version below)

Ultimamente, com os protestos das Vidas Negras Importam, eu tenho passado algum tempo a ouvir. Tenho partilhado publicações e informação de artistas, escritores e activistas negros, tomando um papel de apoio, visto que eu nunca poderei saber o que é passar pelo que eles passam pela cor da minha pele.

No entanto, vim fazer um pequeno texto devido a algo bastante importante que parece estar a ser ignorado, ou as pessoas simplesmente não compreendem.

“Não há racismo em Portugal.” diz Rui Rio e “racismo é um fantasma que não existe”, diz André Ventura, 5 minutos antes de criticar a comunidade cigana. Obviamente que como estes senhores brancos de classe alta, nunca sofreram racismo, não existe.

Não só há racismo em Portugal, como Portugal foi construído por Racismo. Começou com os “Descobrimentos”, ao descobrir uma terra que já tinha sido descoberta, pelos seus habitantes. Não só Portugal foi um dos países que contribuíram mais para a rota da escravatura, mas foi Portugal que a inventou! Portugal viajava até ao Oeste de África e raptava crianças, mulheres e homens da costa, para os vender na Europa. Em 1444, vendeu-se os primeiros escravos em Lagos, Portugal.

Continuou com a tortura e escravidão da população africana e brasileira no Brasil, nas explorações de cana de açúcar e ouro, para construir o Portugal que é hoje, incluindo alguns dos nossos monumentos.

Com o tempo Portugal foi perdendo colónias, mas Salazar, recusava sair de Angola e Moçambique, enviando militares para lutar contra a revolução de um País pela sua independência. Assim foi a Guerra Colonial. Só a conseguiram a independência em 1974, assim como Portugal.

Deixo-vos um pequeno excerto do livro “Declarações de Guerra – Histórias em carne viva da Guerra Colonial” de Vasco Luís Curado. Este excerto vem de um português que serviu na guerra colonial.

Excerto do livro “Declarações de Guerra – Histórias em carne viva da Guerra Colonial” de Vasco Luís Curado

Racismo não só existe em Portugal, como está tão impregnado que já é natural, e passa despercebido a quem não quer olhar.

Somos o país que criou e desenvolveu o racismo, no entanto estamos convencidos que já não existe. Desapareceu. Isso só acontece lá nas Américas.

Portugal é no entanto o segundo país com mais violência policial da Europa, segundo o Comité Anti-Tortura do Conselho da Europa. Segundo eles, “Os riscos de abusos são maiores para afro-descendentes portugueses e estrangeiros, o que indicia discriminação racial pela parte das forças de segurança na altura da detenção e durante o período em que as pessoas ficam à sua guarda.” no Público. Isto em 2018. As preocupações já vinham desde 2013. A Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância (ECRI) também avisou sobre a relativização da violência, pela Polícia, contra a comunidade negra e cigana.

Isto inclui um indivíduo do Bangladesh, que depois de espancado, foi-lhe apontada uma arma e dito “Mereces morrer”. No ano passado, a polícia foi chamada ao Bairro da Jamaica, e espancou quem aparecesse, incluindo mulheres. Em 2015, raptaram e espancaram 6 jovens negros porque alegadamente um atirou uma pedra ao carro da polícia. No entanto, de 922 denúncias policiais em parte de 2017, só um processo disciplinar e cinco inquéritos foram abertos.

Algo que parece passar ao lado de toda a gente que é contra os protestos, é que ninguém protesta em Portugal a eliminação da polícia, apenas o abuso de autoridade. Quando um polícia vê uma arma apontada a si, faz sentido defender-se, mas raptar jovens por uma pedra atirada ao carro, não é defesa, é ego. O assumir que um jovem negro é perigoso e portanto há necessidade de defesa, é racismo. O matar um indivíduo que está a fugir não é defesa pessoal, é assassinato.

A Polícia é uma força de segurança pública, desenvolvida para proteger os seus cidadãos. Alguém com poder e autoridade sobre o resto dos cidadãos, tem que ser extremamente responsável pela sua utilização. Ainda há uns anos atrás, se uma mulher fugisse do marido e fosse à Polícia com uma denúncia de violência doméstica, eles levavam-na a casa e entregavam-na ao marido. No entanto, evoluímos como sociedade. E é só isso que os protestos vos pedem. Uma evolução para uma sociedade onde a comunidade negra e cigana não tenha mais medo da polícia do que do bandido.

O facto de criticarmos uma instituição não é por a querermos abolir, mas porque a queremos melhorar.

Em Portugal, temos primeiro que eliminar as palas impostas a nós pela cor branca da nossa pele, e começar a ouvir a realidade do nosso país. Portugal sempre se soube reinventar e progredir para uma sociedade melhor. Em vez de negarmos o nosso passado e presente, temos que reformar as nossas comunidades e construir um futuro melhor e mais seguro.


Racism in Portuguese – Text in English

Lately, with Black Lives Matter protests, I’ve been spending some time listening instead of writing. Mostly I have been sharing publications and information from black artists, writers and activists, taking a supporting role, since I will never be able to know what it is to go through what they go through for the color of their skin.

However, I came to make a little text due to something very important that seems to be being ignored, or people just don’t understand.

“There is no racism in Portugal.” says Rui Rio (Portuguese politician) and “racism is a ghost that doesn’t exist”, says André Ventura (Far-right politician), 5 minutes before criticizing the Roma community. Obviously, like these white upper class gentlemen, they never suffered racism, it doesn’t exist.

Not only there is racism in Portugal, but Portugal was built by Racism. It started with “The Discoveries”, when we discovered a land that had already been discovered, by its inhabitants. Not only was Portugal one of the countries that contributed to the slavery route, but it was Portugal that started it! In 1444, the first slaves were sold in Lagos, Portugal.

Portugal traveled to West Africa and abducted children, women and men from the coast, to sell them in Europe.

It continued with the torture and slavery of the African and Brazilian population, in sugar cane and gold explorations, to build the Portugal that we know today, including some of our monuments.

Over time Portugal lost colonies, but Salazar (dictator) refused to leave Angola and Mozambique, sending military personnel to fight against a country’s revolution for their independence. That was the Colonial War. They only got it in 1974, as did Portugal.

I leave you a small excerpt from the book “Declarations of War – Stories in the flesh of the Colonial War” by Vasco Luís Curado. This excerpt comes from a Portuguese who served in the colonial war:

“We passed by four or five black kids, escaping, scared, that were going to meet the wolf, that was us. The soldier send us to continue on our way and threw a granade to the middle of the children, that got blown apart. We laughed a lot with that: pieces of kids in the floor.”

Racism not only exists in Portugal, it is so impregnated that it is already natural, and goes unnoticed by those who do not want to look.

A week ago I learned about houses for rent where people from the Black or Brazilian community are not accepted. We are the country that created and developed racism, however we are convinced that it no longer exists. Disappeared. It only happens in America.

Portugal is, however, the second country with most police violence in Europe, according to the Anti-Torture Council of Europe Committee. According to them, “The risks of abuse are greater for Portuguese and foreign African descendants, which indicates racial discrimination by the security forces at the time of detention and during the period when people are in their custody”. This in 2018. Concerns have been present since 2013. The European Commission against Racism and Intolerance (ECRI) also warned about the relativization of violence against the black and Roma community.

This includes an individual from Bangladesh who, after being beaten, was pointed a gun and said “You deserve to die”. Last year, the police were called to the Bairo da Jamaica, and beat up anyone who appeared, including women. In 2015, 6 black young men were kidnapped and beaten because one, allegedly, threw a rock at the police car. However, out of 922 police complaints in part of 2017, only one disciplinary proceeding and five investigations were opened.

Something that seems to be hard for people who is against the protests to understand, is that nobody in Portugal protests the elimination of the police, only the abuse of authority. When a policeman sees a gun pointed at them, it makes sense to defend yourself, but kidnapping young people by a stone thrown at the car is not defense, it is ego. To assume that a young black man is dangerous and therefore there is a need for defense is racism.

The Police is a public security force, developed to protect its citizens. Someone with power and authority over the rest of the citizens, has to be extremely responsible for its use. Just a few years ago, if a woman ran away from her husband and went to the police with a report of domestic violence, they would take her home and hand her over to her husband. However, we have evolved as a society. And that is all that the protests asks of you. An evolution towards a society where the black community is no longer more afraid of the police than of the criminal.

In Portugal, we first have to eliminate the blind imposed on us by the white color of our skin, and start listening to the reality of our country. Portugal has always known how to reinvent itself and progress towards a better society, including with the abolition of slavery. Instead of denying our past, we could reform our communities and heal for a better future.

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